Pablo e a cena musical no Recife (e no Brasil)

Estava eu conferindo o grupo do Whatsapp dos meus colegas estagiários e de repente um neologismo surgiu: “sofrência”. Inicialmente achei que fosse alguma gíria criada por algum dos integrantes do grupo, mas depois soube que o termo pertencia a um tal de “Pablo”. Perguntei quem era essa pessoa e tudo que descobri foi que ele era “O Pablo da Sofrência”. Pela definição, já consegui deduzir que era um cantor de brega que estava fazendo um relativo sucesso com sua música sobre… a sofrência. Recentemente, descobri que ele fez um show no Clube Internacional aqui do Recife e o negócio lotou, foi coisa de rockstar. Já ouvi boatos de que Ivete Sangalo cantou uma música dele e que ele cantará com a dita-cuja e Claudia Leitte em algum lugar de algum estado do Brasil.

O fato é que esse tal de Pablo é um fenômeno por aqui e eu só fui escutar uma música dele semana passada, em plena parada em uma viagem para João Pessoa, visto que o tema da conversa foi o tal cantor e meu tio coincidentemente tinha um vídeo-paródia de uma música dele no celular. Conheci brevemente a música do rapaz e rapidamente analisei que ela tinha a fórmula do sucesso: melodia brega e letra sobre dor de cotovelo com muitos toques de cultura e humor popular. Não tem como dar errado, principalmente aqui no Recife.

Mas o objetivo deste post não é fazer uma análise sobre Pablo ou sobre o gênero musical que ele canta, já que não escuto brega e não tenho interesse em me adentrar nesse universo. O que me levou a escrever este texto é a perene constatação de que, aqui no Recife, não existe futuro musical algum pra mim. Vamos aos fatos: o que realmente faz sucesso aqui é brega. No NETV exibido na hora do almoço nas sextas-feiras, tem um quadro que mostra as principais atrações culturais do final de semana e sempre, SEMPRE tem alguma banda de brega no meio. Se for sertanejo universitário, possivelmente não é daqui. Se for qualquer outro gênero, com certeza não é daqui.

A cena musical do Recife é algo bem interessante, parando pra pensar. O que faz muito sucesso atualmente é o brega. O que faz um mediano sucesso são bandas cover de bandas de rock americanas/britânicas (já conferi algumas delas e tem gente muito boa nesses grupos). E o que só faz sucesso em um nicho específico são bandas mais alternativas, ligadas à cultura local.

Agora considere que meu gênero de atuação é o pop/rock e que 95% das minhas composições são em inglês. A matemática é simples.

Sendo completamente sincera, eu não acho que exista campo de atuação pra mim em termos de Brasil como um todo. O que faz sucesso em âmbito nacional? Rapidamente podemos responder: MPB, sertanejo universitário e até mesmo brega (se bem que Calypso é um evento meio isolado nesse meio). Em termos de pop, nos últimos tempos há uma tentativa clara de transformar cantoras de funk em divas do pop, o que tem aumentado a participação do gênero no que faz sucesso nacionalmente. “Ah, Manu, e o rock? Tem Capital Inicial, Paralamas, Titãs!”. Sim, tem, e todas essas bandas de rock das quais você conseguir se lembrar agora possivelmente foram fundadas na década de 80. Ou seja: no Brasil, você só é bem-sucedido no rock se você for um tiozão do rock. NX Zero é basicamente a última banda do gênero que fez sucesso em tempos recentes, e eles estouraram em 2006. Sobre o pop/rock acho que não tem nem o que comentar, já que é um gênero que basicamente não existe nos charts de sucesso do Brasil.

Eu não canto funk e não sou tiazona do rock. Simples assim.

“Ah, Manu, mas você só quer sucesso? E o amor à música???”. Se eu não tivesse amor à música eu nem estaria cogitando tentar qualquer coisa nessa carreira, esse é um fato. Sobre o sucesso, aparecer nos programas do Faustão e da Eliana poderia até ser legal mas passa longe dos meus objetivos profissionais. A questão não é sucesso; é sobrevivência. Viver de música é um assunto complicado por si só, mas nós, músicos, sempre temos aquela esperança de que “vai dar”, “vou tentar”, “é só no início”. No meu caso, é difícil acreditar nisso, já que minha situação simplesmente desafia as leis da lógica. “Mas Manu, você não tem fé?”. Até tenho, mas também consigo enxergar a realidade. E é por isso que quando penso no futuro, às vezes sinto uma pontada no estômago ao perceber que se eu quiser colocar comida na minha mesa através do meu trabalho como cantora, eu tenho que ir “pra fora”. Estados Unidos, Inglaterra, Escócia, onde for. E chegar em um país distante como imigrante tentando uma carreira em que as chances de ser bem-sucedida são poucas já é um pensamento capaz de tirar o sono de qualquer pessoa.

PS: Vale comentar que eu não costumo frequentar locais em que a cena musical recifense acontece (casas de shows, barzinhos, espaços alternativos), então este texto foi escrito por uma observadora e pode se beneficiar bastante da experiência de quem realmente frequenta tais lugares. Tragam suas opiniões!

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