Reflexão: Ser afinada é o suficiente?

Por muito tempo eu pensei que cantar se resumia a ser afinada ou não. Talvez por não ter convivido com pessoas do meio musical durante meus anos de formação, talvez por pura desinformação mesmo. Se alguma vez eu te escutei na infância ou adolescência e achei que você cantava mal, eu entendi que o motivo era sua falta de afinação. E se eu mesma era conhecida por não cantar bem, meu problema, obviamente, era não ser afinada.

Lembro-me da primeira vez em que alguém falou um aspecto da minha voz em que eu precisava melhorar e que não era a afinação:

-Manu, seria bom se você melhorasse a impostação.

Mas o que seria isso? Acredite: já perguntei a milhares de pessoas e, literalmente, cada uma tem uma opinião diferente. A minha diz que impostar é você saber “colocar” a voz pra cantar e, para entender isso, basta perceber que ninguém canta do jeito que fala. Impostação também tem a ver com potência e clareza da voz, mas vou parar com a aulinha de canto ~edição relâmpago~ por aqui para percebermos o seguinte fato:

Nesse instante, eu soube que afinação não era tudo.

Até porque, a partir do momento em que eu conheci melhor minha voz, afinação deixou de ser algo inalcançável pra mim. Ou seja: aquilo que eu sempre entendi que não tinha, na verdade, era apenas uma questão de análise e experiência. Eu podia ser afinada. E com o passar do tempo, fui aprendendo que havia não só um como 45495054905945 aspectos além da afinação. Respiração. Dicção. Trejeitos. E mais tudo aquilo que se passa na minha cabeça quando decido que vou abrir a boca e cantar em vez de falar.

Hoje eu estava cantarolando Wildest Dreams enquanto esperava a professora começar a aula e de repente notei que minhas duas colegas estavam olhando pra mim. Uma delas disse:

-Eu vou tirar a professora da frente e te colocar lá.

Ontem uma outra colega disse “Sua voz é linda.” E eu poderia citar outros elogios e comentários positivos que venho recebendo desde que decidi mostrar minha voz para o mundo. Mas o objetivo deste texto passa longe de algo relativo a egocentrismo e arrogância. Ironicamente, o que me fascina é justamente o fato de que, para as pessoas em geral, eu já sou boa; mas, na minha opinião, não. Enquanto Renata diz que minha voz é linda, eu estou preocupada com a impostação que não foi tão boa. Enquanto Vanessa me diz para subir em um palco, eu fico nervosa só de pensar no simples fato de outros seres humanos me escutando. Enquanto Maria me diz que canto bem, eu me preocupo pois minha dicção ainda precisa melhorar.

Eu gostaria que fosse tão simples. Seria lindo se minha concepção infantil de que cantar bem = ser afinada fosse realidade. Mas, por outro lado, também seria fácil, e eu já introjetei a ideia de que no que diz respeito ao canto, não existem caminhos fáceis. Não há atalhos nem caronas. Usando uma analogia bíblica, a porta é estreita e poucos são os que trilham o caminho árduo que leva até verdes pastagens. No meu caso, esse paraíso é a simples realização de um sonho inexplicável: escutar algo lindo através da minha voz. Não sei como, nem quando, nem em que circunstância esse desejo foi concebido, mas ele é forte demais para eu ignorá-lo. E grande demais para se limitar a um acerto de notas.

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